Ana Paula Nogueira


Ana Paula Nogueira
CURADORA OLHAR FEMININO

Fundadora da FemFilm, produtora voltada para filmes com olhar feminista. Entre seus trabalhos estão a série “Rio de Topless”, que estreou no Canal Brasil e que em 2020 ganhou versão em filme de longa-metragem, e os curtas “As Últimas Putas de Paris” e “Mulheres Por Lula’. Atualmente, finaliza um documentário sobre a histórica marcha “#EleNão”.

Selecionar 90 minutos foi uma tarefa árdua dentro da quantidade de filmes de qualidade que a mostra Olhar Feminino recebeu. Como fã do cinema feito por mulheres fiquei bastante tocada com as produções, vindas de várias regiões do Brasil. Os filmes não só retratam a realidade das periferias - que, na verdade, melhor representam o que de fato é o Brasil - mas retratam, na maioria das vezes, o dia a dia de mulheres que vivem nesses espaços, seus corpos, suas lutas. Seja na forma de documentário, ficção ou performance.

Destaque para abertura da Mostra com o ritual-recital-performático “Um transe de dez milésimos de segundo”, da diretora Jamile Cazumbá, que cresceu na Palestina, bairro de Salvador, Bahia, e atualmente mora no Recôncavo Baiano. Nessa mesma linha performática, “Táticas de guerrilha do meu corpo preto”, de Lais Reverte, moradora do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, traz a força de Obá, numa espécie de xirê solo-performático. Axé!

E quem são as personagens retratadas nos documentários? São as mães solteiras do “Mães Solo”, de Camila de Moraes, que traz personagens que fogem dos estereótipos que cercam mulheres negras mães solteiras da periferia. Ou são as mulheres que arregaçaram as mangas para ajudar comunidades inteiras, em “Ipa/Ipá - efeito e força”, de Thais Scabio, de Cidade Júlia, São Paulo, que faz uma importante reflexão do ser mulher, negra, moradora da periferia e liderança durante a pandemia e como evitar o efeito dominó disparado pelo Covid 19.

São ainda as comunidades indígenas do Rio Grande do Sul que resistem ancoradas na espiritualidade, no respeito às diferenças e no vínculo com a natureza, do filme “Quando te Avisto”, de Neli Mombelli e Denise Copetti. E são os estudantes que lutaram pela aprovação das cotas étnico-raciais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alcançada apenas em 2017, do doc “À prova”, de Natasha Rodrigues, nascida e crescida no Grajaú, em São Paulo.

Entre os filmes de ficção temos o belíssimo “Rio das almas e negras memórias”, de Taize Inácia e Thaynara Rezende, de Goiás, que se inspira nas memórias de negros escravizados nas margens do Rio Soul para criar um musical negro que narra, por meio da força da dança e das manifestações culturais afro-brasileiras, o processo violento da escravidão. Um retrato do trauma e das memórias do período mais absurdo e triste da nossa história.

Esse é o Brasil visto pelo Olhar Feminino. Espero que apreciem, aprendam e se inspirem.